domingo, 22 de julho de 2012

Lei da Compensação


Faltando três meses para as eleições a prefeito da cidadezinha de Riacho Dentro no interior do Brasil. Muitas casas tinham sido visitadas para colocar os cartazes dos candidatos a mandatário do município. Somente uma casa não havia cartazes e ela ficava em um ponto estratégico. Fazia esquina com a principal avenida do centro.

Cabos eleitorais do atual prefeito, equipados com todas as ferramentas necessárias para colocar os cartazes, foram a tal casa cobiçada por eles. Antes de se aventurarem na abordagem ao morador, eles procuraram sabem quem vivia no local. Descobriram, que se tratava de um aposentado, ex-combatente da Segunda Guerra Mundial. Pedro Virgílio era o nome dele.
Vai ser muito fácil colocar lá, esses velhos não se importam muito com eleição, pois o voto deles não é obrigatório. – disse um dos cabos eleitorais do atual prefeito.
Vá com calma, essa gente não costuma ser nada nada hospitaleira com estranhos.
Que nada! Não dou dez minutos para colocarmos os cartazes no muro e naquelas duas árvores diante da casa. – disse apontando.



O mais otimista dos cabos eleitorais se aproximou do muro e bateu palmas, pois não havia campainha:
Ôhhh de casa!!!
A porta da frente se abriu e de lá veio um idoso em passos lentos. A idade não proporcionava que ele andasse mais rápido. Apoiado por uma bengala de jacarandá, o homem demorou uns quinze minutos para chegar ao portão, que não ficava tão longe assim.
Bom dia, meu bom homem! – disse o cabo eleitoral sorridente, não se importando com a demora do idoso em atendê-lo.
Bom dia! – disse ele, com uma cara simpática.
Eu me chamo Carlos, aqui estão os meus amigos e somos cabos eleitorais do atual prefeito. Como o senhor sabe, estamos nas vésperas das eleições municipais.
Sei... Vocês querem um copo d'água por causa do calor. Andar sob este sol não deve ser fácil.
Não, não queremos água, muito obrigado por nos oferecer... Porém, estamos aqui para pedir outra coisa.
O que é então?
Gostaríamos de colocar estes cartazes eleitorais em seu muro... O senhor nos permite?
Claro! - disse o idoso.
Carlos olhou para os amigos sorridente.
Mediante o pagamento de 200 reais.
Duzentos reais para colocar os cartazes?
Por cada um deles!
Por cada um deles?
Isso mesmo! A cada semana, pode fazer o pagamento! Estarei aqui mesmo para receber o dinheiro!
Por semana? Isso é um roubo!
Não! Isso se chama Lei da Compensação!
Lei da Compensação?
Para eu morar nesta casa, me cobram: água, luz, telefone e Imposto territorial. Conclusão, eu pago por tudo. Este valor que estou cobrando é para compensar os meus gastos com a prefeitura e demais empresas. Nada mais justo do que o prefeito me pagar para usar o espaço em que eu moro.
Mas, eu só vou usar um pequeno espaço, para os cartazes.
Eu também uso um pequeno espaço... Está vendo a minha casa? – disse o idoso, apontando. – Ela ocupa um pedaço do terreno, mas eu pago pelo espaço total dele. Se eu não pagar os meus impostos, este prefeito, o qual você está fazendo campanha, virá aqui e me expulsará de minha casa. Ou se ele cismar de fazer uma rodovia, também irá me tirar daqui... Você não acha justo, eu cobrar uma coisa que me cobram há anos?
Assim o senhor está contra a democracia!
Não estou, não! Sou a favor da democracia e do capitalismo! Não me neguei, que colocasse os cartazes, apenas quero que paguem pelo espaço... Só isso!
Os cabos eleitorais saíram sem mais insistir com idoso, que voltou para dentro de casa e a esposa o perguntou o que era:
Nada amor, apenas o prefeito querendo se aproveitar da gente novamente.


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