Faltando três meses para
as eleições a prefeito da cidadezinha de Riacho Dentro no interior
do Brasil. Muitas casas tinham sido visitadas para colocar os
cartazes dos candidatos a mandatário do município.
Somente uma casa não havia cartazes e ela ficava em um ponto
estratégico. Fazia esquina com a principal avenida do centro.
Cabos eleitorais do atual
prefeito, equipados com todas as ferramentas necessárias para
colocar os cartazes, foram a tal casa cobiçada por eles. Antes de se
aventurarem na abordagem ao morador, eles procuraram sabem quem vivia
no local. Descobriram, que se tratava de um aposentado, ex-combatente
da Segunda Guerra Mundial. Pedro Virgílio era o nome dele.
– Vai ser muito fácil
colocar lá, esses velhos não se importam muito com eleição, pois
o voto deles não é obrigatório. – disse um dos cabos eleitorais
do atual prefeito.
– Vá com calma, essa
gente não costuma ser nada nada hospitaleira com estranhos.
– Que nada! Não dou
dez minutos para colocarmos os cartazes no muro e naquelas duas
árvores diante da casa. – disse apontando.
O mais otimista dos
cabos eleitorais se aproximou do muro e bateu palmas, pois não havia
campainha:
– Ôhhh de casa!!!
A porta da frente se
abriu e de lá veio um idoso em passos lentos. A idade não
proporcionava que ele andasse mais rápido. Apoiado por uma bengala
de jacarandá, o homem demorou uns quinze minutos para chegar ao
portão, que não ficava tão longe assim.
– Bom dia, meu bom
homem! – disse o cabo eleitoral sorridente, não se importando com
a demora do idoso em atendê-lo.
– Bom dia! – disse
ele, com uma cara simpática.
– Eu me chamo Carlos,
aqui estão os meus amigos e somos cabos eleitorais do atual
prefeito. Como o senhor sabe, estamos nas vésperas das eleições
municipais.
– Sei... Vocês querem
um copo d'água por causa do calor. Andar sob este sol não deve ser
fácil.
– Não, não queremos
água, muito obrigado por nos oferecer... Porém, estamos aqui para
pedir outra coisa.
– O que é então?
– Gostaríamos de
colocar estes cartazes eleitorais em seu muro... O senhor nos
permite?
– Claro! - disse o
idoso.
Carlos olhou para os
amigos sorridente.
– Mediante o pagamento
de 200 reais.
– Duzentos reais para
colocar os cartazes?
– Por cada um deles!
– Por cada um deles?
– Isso mesmo! A cada
semana, pode fazer o pagamento! Estarei aqui mesmo para receber o
dinheiro!
– Por semana? Isso é
um roubo!
– Não! Isso se chama
Lei da Compensação!
– Lei da Compensação?
– Para eu morar nesta
casa, me cobram: água, luz, telefone e Imposto territorial.
Conclusão, eu pago por tudo. Este valor que estou cobrando é para compensar os meus gastos com a
prefeitura e demais empresas. Nada mais justo do que
o prefeito me pagar para usar o espaço em que eu moro.
– Mas, eu só vou usar
um pequeno espaço, para os cartazes.
– Eu também uso um
pequeno espaço... Está vendo a minha casa? – disse o idoso,
apontando. – Ela ocupa um pedaço do terreno, mas eu pago pelo
espaço total dele. Se eu não pagar os meus impostos, este prefeito,
o qual você está fazendo campanha, virá aqui e me expulsará de
minha casa. Ou se ele cismar de fazer uma rodovia, também irá me
tirar daqui... Você não acha justo, eu cobrar uma coisa que me
cobram há anos?
– Assim o senhor está
contra a democracia!
– Não estou, não! Sou
a favor da democracia e do capitalismo! Não me neguei, que colocasse
os cartazes, apenas quero que paguem pelo espaço... Só isso!
Os cabos eleitorais
saíram sem mais insistir com idoso, que voltou para dentro de casa e
a esposa o perguntou o que era:
– Nada amor, apenas o
prefeito querendo se aproveitar da gente novamente.


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